NEGLIGÊNCIA FATAL
Data: 30 de setembro às 21:25:58 BRT, terça
Tópico: Internet


Chefe do centro regional do Inpe aponta falhas que contribuíram para o desastre de Alcântara

tragédia na Base de Lançamento de Alcântara completou um mês no dia 22, prazo estipulado pelas autoridades no dia do acidente para elucidar as causas do incêndio que matou 21 engenheiros e técnicos do Centro Técnico Aerospacial (CTA) de São José dos Campos e sepultou a ambição brasileira de operar, ainda no governo Lula, seu Veículo Lançador de Satélites (VLS-1). Longe de identificar as razões do desastre, a Aeronáutica divulgou um primeiro parecer da comissão de investigação. Uma corrente elétrica de origem desconhecida teria acionado a ignição prematura de um dos motores. A história do programa espacial brasileiro demonstra que os fatores desencadeantes da tragédia foram disparados bem antes do fatídico agosto. Aos 76 anos, o engenheiro elétrico Adauto Gouveia Motta é um observador privilegiado desses eventos. Em 1964, foi um dos poucos oficiais brasileiros a receber treinamento para lançamento de foguetes no Wallops Flight Center, da Nasa, na Virgínia, Estados Unidos, quando o Brasil decidiu cooperar com a aventura espacial americana. Durante dez anos, chefiou as operações no campo de lançamento da Barreira do Inferno, em Natal. Major reformado da Aeronáutica, dirige o centro regional do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), na mesma cidade. Ocupa há 30 anos a mesma cadeira, caso raro de longevidade em cargo de confiança indicado diretamente pelo ministro de Ciência e Tecnologia. O cearense orgulha-se de dizer que dorme foguete, acorda foguete, come foguete. 'Passei minha vida todinha agarrado a eles.' A seguir, os melhores trechos da entrevista. ADAUTO GOUVEIA MOTTA Leo Caldas/Titular Dados pessoais Nasceu em Camucim, no Ceará, tem 76 anos, é separado e mora sozinho em Natal Trajetória Major reformado da Aeronáutica, dirige a regional nordestina do Inpe. É dono de uma construtora e de postos de gasolina na cidade Livros publicados Segurança no Manuseio de Foguetes e Esboço Histórico da Pesquisa Espacial no Brasil ÉPOCA - O que aconteceu em Alcântara pouco antes da tragédia (21 técnicos trabalhando em cima de 40 toneladas de combustível sólido) foi um atentado às normas de segurança? Adauto Gouveia Motta - Não foram seguidas as normas de segurança. Até porque não houve oportunidade de treinar essas regras. O que esperar de um programa espacial que em 20 anos de existência lançou apenas dois foguetes? Ninguém aprende balé na teoria, aprende em cima da sapatilha. ÉPOCA - Que regras de segurança foram claramente descumpridas? Motta - Junto a um foguete ou a explosivos só pode ser realizada uma atividade de cada vez. Vinte e uma pessoas trabalhando naquela gaiola foi uma loucura. Todo campo de lançamento tem de ter um responsável pela segurança que conheça o nível de risco de cada atividade. Se todos os 21 mortos eram de São José dos Campos, significa que não havia ninguém de Alcântara acompanhando os trabalhos no foguete. Onde estava o oficial de segurança? Opessoal do CTA era dono absoluto da situação. Isso é que não pode. Quando montamos a Barreira do Inferno, quem quer que viesse lançar foguete aqui (americanos, franceses) tinha de se submeter às regras de segurança. Cansei de brigar com americano por isso. Ailton de Freitas/Ag. O Globo ESCOMBROS Torre de lançamento do VLS-1, em Alcântara, depois da explosão ÉPOCA - Segundo o CTA, cinco técnicos estavam trabalhando com energia elétrica no VLS-1, mas a intensidade não seria suficiente para acionar os dispositivos de ignição. Faz sentido? Motta - Se havia eletricidade perto do foguete estava errado. Não interessa a intensidade da corrente. Até para fazer um furo precisariam de uma furadeira manual. Um foguete com 40 toneladas de combustível sólido é como sogra. Explode por muito pouco. ÉPOCA - Houve outros descuidos? Motta - O iniciador dos motores é altamente sensível e só pode ser colocado na contagem regressiva para o lançamento. Lá em Alcântara, dois motores estavam com o iniciador no dia do acidente, três dias antes do lançamento. Iniciador tem de ser tratado melhor do que moça. Não pode ser transportado de qualquer jeito. Todos precisam ter sido fabricados na mesma data e no mesmo lote porque devem queimar simultaneamente. Esses erros ceifaram 21 vidas. Reprodução EXPERIÊNCIA Preparação do foguete Aerobee, movido a combustível líquido, para lançamento na Barreira do Inferno em 1966 ÉPOCA - De quem é a culpa? Motta - Não é de uma ou de outra pessoa. Uma série de fatores abriu caminho para o acidente. O principal problema é a falta de uma política sólida na área espacial. Se houvesse dinheiro, uma fábrica de foguetes atuante nos moldes da Embraer e treinamento sistemático, a tragédia não teria acontecido. Perdemos muita gente boa no acidente, mas ele serviu para acordar o Brasil para a crise. ÉPOCA - Duas tentativas de lançar o VLS fracassaram, a terceira acabou em tragédia. O foguete é ruim? Motta - Acredito que a escolha do modelo de nosso VLS tenha sido equivocada. Ele é cópia de um cluster (junção de vários foguetes), criado pela empresa canadense Bristol Aerospace. Em 1968, quando o pessoal da Nasa veio à Barreira do Inferno treinar os brasileiros no lançamento de foguetes, os canadenses vieram junto para divulgar o produto deles. Quando o Brasil decidiu investir em um foguete lançador de satélites, somente em 1980, ainda se acreditava que o modelo da Bristol fosse interessante. Afinal, acharam que, juntando quatros foguetes que haviam sido aprovados individualmente, o VLS subiria sem problemas. Essa premissa provou-se falsa. No ano passado, procurei a Bristol Aerospace e soube que eles fizeram vários lançamentos do cluster, mas desistiram porque o modelo se mostrou impraticável. ÉPOCA - Antes de comprovar a eficiência do VLS-1, os brasileiros já colocaram satélites caros a bordo dele, aumentando o prejuízo. Por quê? Motta - A falta de dinheiro e de definição sobre os rumos do programa espacial criou uma situação embaraçosa. Em qualquer lugar do mundo, o foguete é desenvolvido na prancheta e um protótipo é submetido a vários lançamentos com carga técnica. Ou seja: instrumentos que verificam todos os parâmetros de vôo do foguete. São necessários seis, dez lançamentos só para isso. É preciso verificar se o deslanchamento dos estágios ocorre no tempo certo, se a queima de combustível é homogênea e outras coisas. Os resultados têm de ser iguais em toda a série lançada, com diferença de no máximo 10%. ÉPOCA - O VLS-1 não foi submetido a esses testes? Motta - A falta de dinheiro levou a decisões erradas. Em 1980, optaram por um foguete já muito atrasado. Só 17 anos depois fizeram o primeiro lançamento. Em vez de testar o foguete como deveria, ficaram com medo porque ele era muito caro. O Brasil não teve a oportunidade de homologar o VLS-1 antes de colocar satélites a bordo. Houve excesso de confiança. Juravam que a junção de quatro foguetes já aprovados iria voar. Não é bem assim. Quem quer moça bonita tem de pagar os babados. Se o Brasil quer ter um programa espacial decente, tem de investir.
FONTE: REVISTA ÉPOCA
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"http://revistaepoca.globo.com/Epoca/0,6993,EPT608299-1664-2,00.html"





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